Year: 2018

Era uma vez um pequeno mas enorme pedacinho de verde…

Serra do Açor, com a Mata da Maragaraça no centro, ao fundo. Maio de 2018

Reflectimos bastante antes de publicar algo sobre esta temática, mas o principal meio que inspira esta marca e as suas colecções é a Serra do Açor, e deixaria uma lacuna enorme se não mencionássemos o Outubro negro de 2017.

O cenário pós-catástrofe só poderia ser descrito como pós-apocalíptico, com toda a Serra pintada de negro e ainda a fumegar. Tínhamos uma visão sombria das aldeias perdidas nesse negro, atordoadas, e extraordinariamente de pé devido à resiliência dos seus habitantes. E é essa coragem e resiliência que quero celebrar aqui, e para sempre.

A maioria que perdeu os seus bens e sustento poderia ter partido, ter recomeçado em algum lugar longínquo, afastados do trauma e do cheiro a queimado. Mas a maioria ficou. Teimosamente. Beirões de sangue e beirões por escolha, beirões “estrangeiros” que dignificam e honram a natureza profundamente.
Ficaram, porque acredito que só temos um verdadeiro lar, cujas raízes são fundas e indestrutíveis. Podemos passar a nossa vida em muitos lugares, mas existe sempre um lugar que nos preenche mais do que qualquer outro, que faz parte de nós e que amamos incondicionalmente. Ficaram porque encontraram esse lugar e seria impensável sequer deixá-lo. Acima de tudo, quero aqui deixar a minha enorme admiração por todos os que atravessaram traumas impensáveis, e continuam a lutar pelo nosso pequeno paraíso, o nosso “Shire”.

Passados meses, a Serra continua negra. Mas a primavera atenuou esse manto com os seus mares de erva e flores silvestres, e revelou a verdadeira força das espécies de árvores autóctones, que vão rebentando, com o seu verde profundo a contrastar nas cascas queimadas.
A Mata da Margaraça é neste momento um atestado a essas espécies, e ao quão diferente estaria a paisagem neste momento, se os interesses económicos da resina e da industria do papel não tivessem invadido e secado a serra, com os seus pinhais e eucaliptais. Se os carvalhos, castanheiros, medronheiros e outras árvores de fruto dominassem a paisagem com as suas ricas produções, tão procuradas neste momento…

Dá que pensar, quando olhamos para aquele pequeno mas enorme coração de verde, na fotografia. Fica também o mais profundo agradecimento a todos os que contribuem para a sua conservação diariamente.

Novidades sobre novas colecções em breve, vão seguindo!

Uma ideia que nasce de uma história de amor

Coja, Coimbra

Pode dizer-se que a Serrestre nasceu nos anos 90, quando dei os primeiros passos nas ruas de uma aldeia perdida no interior beirão, e quando tomei os primeiros banhos de verão nas águas do rio Alva. Mas acima de tudo nasceu da ousadia de um casal que contrariou tudo, e trocou a cidade caótica e turbulenta pela vida pacata na terra dos avós.

Só vínhamos de visita nas férias, à aldeia de Cerdeira, e para mim, era o lugar mais mágico do mundo. Era a liberdade avassaladora, depois de meses trancados num apartamento no meio de prédios e mais prédios. Visitar a “terrinha” era como regressar a casa, ás nossas raízes.  A aldeia representa agora, passados muitos anos, um cofre de memórias boas, com a minha avó eternizada em cada recanto.

Em 2001, os meus pais decidiram que era por aqui, no interior, que iríamos construir a vida nos próximos anos. Enquanto fosse possível. Com bastante sacrifício, conseguiram conciliar um emprego em Lisboa e a vida a 300km. Uma vida em que pudessem criar os filhos sem a insegurança e o caos citadinos. Escolhemos a vila de Coja em detrimento da aldeia por questões de logística e de poupança,e revelou-se uma ótima decisão: continuávamos em “casa”, apesar de tudo.

Fraga da Pena, Benfeita, Coimbra

Os anos passaram, e a vontade de fazer vida aqui intensificou-se cada vez mais. A Serrestre nasce dessa vontade, de celebrar a vida por aqui. Da teimosia de querer ficar quando existe muito “mais” nos grandes centros urbanos, e de saber que esse “mais” não chega. A sua criação acontece numa altura em que o interior de Portugal está fragilizado e precisa de revitalização, e que invistam nele.

Dizem que é impossível definir a altura em que nos apaixonamos por alguém. Que vai acontecendo, e quando damos por nós, estamos submersos nesses sentimentos todos. E que essa paixão surge de uma conexão pura e que por vezes, parece irracional. Creio que o mesmo se aplica a lugares, e esta marca surge, acima de tudo, de uma história de amor assim.