
Reflectimos bastante antes de publicar algo sobre esta temática, mas o principal meio que inspira esta marca e as suas colecções é a Serra do Açor, e deixaria uma lacuna enorme se não mencionássemos o Outubro negro de 2017.
O cenário pós-catástrofe só poderia ser descrito como pós-apocalíptico, com toda a Serra pintada de negro e ainda a fumegar. Tínhamos uma visão sombria das aldeias perdidas nesse negro, atordoadas, e extraordinariamente de pé devido à resiliência dos seus habitantes. E é essa coragem e resiliência que quero celebrar aqui, e para sempre.
A maioria que perdeu os seus bens e sustento poderia ter partido, ter recomeçado em algum lugar longínquo, afastados do trauma e do cheiro a queimado. Mas a maioria ficou. Teimosamente. Beirões de sangue e beirões por escolha, beirões “estrangeiros” que dignificam e honram a natureza profundamente.
Ficaram, porque acredito que só temos um verdadeiro lar, cujas raízes são fundas e indestrutíveis. Podemos passar a nossa vida em muitos lugares, mas existe sempre um lugar que nos preenche mais do que qualquer outro, que faz parte de nós e que amamos incondicionalmente. Ficaram porque encontraram esse lugar e seria impensável sequer deixá-lo. Acima de tudo, quero aqui deixar a minha enorme admiração por todos os que atravessaram traumas impensáveis, e continuam a lutar pelo nosso pequeno paraíso, o nosso “Shire”.
Passados meses, a Serra continua negra. Mas a primavera atenuou esse manto com os seus mares de erva e flores silvestres, e revelou a verdadeira força das espécies de árvores autóctones, que vão rebentando, com o seu verde profundo a contrastar nas cascas queimadas.
A Mata da Margaraça é neste momento um atestado a essas espécies, e ao quão diferente estaria a paisagem neste momento, se os interesses económicos da resina e da industria do papel não tivessem invadido e secado a serra, com os seus pinhais e eucaliptais. Se os carvalhos, castanheiros, medronheiros e outras árvores de fruto dominassem a paisagem com as suas ricas produções, tão procuradas neste momento…
Dá que pensar, quando olhamos para aquele pequeno mas enorme coração de verde, na fotografia. Fica também o mais profundo agradecimento a todos os que contribuem para a sua conservação diariamente.
Novidades sobre novas colecções em breve, vão seguindo!

